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quinta-feira, 4 de março de 2021

JAVALIS, CASA DA ÁGUA E A ELETRICIDADE


Javalis (Google-A-Médio Tejo)
Num destes dias, calcorreando como habitualmente faço, pela “fresquinha”, instruí os meus calcantes no sentido da Capa-Rota pelo antigo caminho que vai até à “casa-da-água”, como antigamente se dizia e era. Com a mudança dos tempos, fazendo jus à modernidade, virou transformação de eletricidade. Eletricidade, essa coisa que eu, teimosamente, não consigo ver. O meu saudoso irmão “não levava à paciência” que eu não visse, não sentisse, não cheirasse e não adorasse a eletricidade.

Que hei de eu fazer? Bater com a cabeças nas paredes? Autoflagelar-me com cavalo-marinho de pontas estreladas? Atirar-me das escadas abaixo? Claro que não! Quero lá saber se isso a que chamam eletricidade, se vê ou não. Eu não vejo, ponto final parágrafo.

Uns 100 metros após o final da rua Humberto Delgado, para lá da ponta do Bairro da Arroteia, entrei no tal caminho que me fez recuar mais-ou- menos, sessenta de tempo contado em anos, por onde algumas vezes acompanhei a minha Mãe e a burra Carocha, levando trigo ou milho para o Ti Sebastião Moleiro transformar em farinha na mó gigante que na azenha trucidava tudo o que lhe aparecesse à frente.

Fiquei impressionado porque os carrascos que ladeiam o caminho continuam sendo altos. Na verdade, eu, em “puto”, quando daquelas passagens, os carrascos pareciam-me árvores gigantes, tal era a sua envergadura. Agora, nestes tempos pandémicos, continuam sendo grandes.

Eram vários os caminhos assim, entre a Abrunheira, Linhó, Colónia, Ranholas, Casal da Beloura, Capa Rota e Manique de cima ou Casal da Peça, que se cruzavam e davam a necessária serventia a pessoas e animais, para se chegar aos vários sítios.     

Voltando à questão do ver ou não ver, “eis a questão”; é verdade que, muitas vezes, vemos aquilo que queremos e o que não queremos, mas o que conta mais é o nosso querer. Por exemplo, se eu vi uma vara de porcos domésticos, embora pretos, tranquilamente a pastar no campo à frente da minha casa, e por uma razão quaisquer, quiser ver uma vara de javalis grandes, gordos e bem aparelhados de perigosos cornos pontiagudos, vejo! É a minha vontade e outros que se lixem, ou acreditam na patranha ou “vão dar uma curva ao bilhar grande” ou pelo menos ao pequeno.

Ou seja, os caçadores que estejam sossegados e não se ponham a limpar e afinar as espingardas, porque os javalis ainda não chegaram á Abrunheira.

Levar a nossa vontade avante é muito bonito, agora, em nome dessa vontade, querer enfiar o gorro aos outros, aí, já é aldrabice e vigarice.

Silvestre Brandão Félix

04 março de 2021

Foto: Google (A. Médio Tejo)

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

PELAS ESTRADAS DE SINTRA, FUI


Pelas "Estradas" de Sintra, fui, como outras tantas vezes. "Mistérios", que procuro, nada!  

Mas, muitas evidências! 

As gruas e guindastes na paisagem de Sintra (Foto minha)
As "Escadinhas", viraram "escadonas". Muito mais me custam a subir, do que quando as subia com a minha Mãe. Pareciam muito compridas, embora de subida fácil, mas agora… mesmo assim, já voltei a conseguir subi-las, ultrapassada que está, aquela longa travessia do… dilatado perímetro abdominal.   

Nas “Escadinhas”, descendo, não muito longe do princípio, à direita, nunca se esquecia de me dizer; “foi ali, naquela casa, que a Mãe nasceu”. Agora… olho, olho e não sei qual delas, é!

Elas, as “Escadinhas”, eram do hospital, mas agora… porque virou “monstro sagrado” (a capela) ao abandono ou, pelo menos, vazio de tudo o que foi e deu… sim, deu vidas pela cura e pelo nascimento, porque muitos também viram a primeira luz deste mundo, dentro daquelas paredes.

A descê-las e quando se chega cá abaixo, se virarmos à esquerda e continuarmos a subir a ladeira, temos logo ali “à mão de semear”, o que foi mercado de muitas vendas. Com a minha Mãe, lá fui duas ou três vezes. Uma ou outra vendedeira, das mais velhas, ainda conheciam a Augusta dos “Ferras”. Fechando os olhos e com a mão em concha por detrás da orelha, ainda se podiam imaginar os pregões. E a minha Mãe sabia o das Camélias e das Hortênsias.

Agora, o mercado, em boa hora aproveitado porque de abandono sofreu, passou a ser, “Museu de História Natural” com o decisivo contributo do escritor Miguel Barbosa que, valorizando a sua tendência paleontológica, lá colocou a sua valiosa coleção. Soube ontem que faleceu nestes dias. Que descanse em paz. Do Miguel Barbosa conheço bem a “vagabundagem” do “Palheiro”, escrito por ele. No GITU-Grupo de Intervenção Teatral da URCA (Abrunheira), pelos idos de 1979/80, dei voz ao descrente e revolucionário, “Segundo Vagabundo”. O “Grande” Gil Matias nos ensinou e encenou para estrearmos no, ainda novíssimo, pavilhão da URCA, e, depois do sucesso, por aí andamos Concelho de Sintra afora.   

Nesses anos, a Abrunheira e os abrunhenses ou abrunheirenses, tinham sede de cultura, e agora têm sede de quê?

Voltando aos “mistérios”, aliás, evidências de Sintra e indo pela direita, no “Rio”, que também já era “do-Porto”, na ponta de água que a minha Mãe também usou, cruza-se a entrada para o “paradeiro-caça-níqueis” dos motorizados que, muito pertinho ficam do nosso “Palácio”.    

Começando a subir à direita em direção à Câmara, está um pequeno edifício de arquitetura atraente, mas muito mal-amado; era o “Dispensário”. Agora, porque os “tempos” estão “avariados”, o “Dispensário” da assistência aos tuberculosos, foi dispensado das tarefas que lhe estavam destinadas e permanece de janelas e portas entijoladas.

A meio da rampa, também do lado direito, se calçavam as “parelhas”. Era o ferreiro que ainda “bem-me-lembro”, de, por lá, o ver e ouvir aquele timmm! timmm! do martelo dando na bigorna moldando a ferradura que, em brasa ficava, depois de acamada na forja bem quente pelo “ventoso” fole. Por lá, sempre estavam parelhas aguardando “sapatolas” novas.

Os Toc! Toc! dos mesmos cavalos “ferrados” no “Rio-do-Porto”, puxando as charretes que pelo tempo do Eça andavam e passavam, viraram Tuck! Tuck’s! de barulheira infernal e cheirete a petróleo.

Os passeantes, bem vestidinhos e cheirosos a perfumes carotes, viraram turistas dos quatro, cinco ou seis cantos do mundo, de pouca vestimenta e simples, despejados aos milhares dos comboios da CP, ou dos autocarros que enchem todas as ruas e passeios do lado de cá da Serra, ou seja, do lado contrário de onde foram promovidos e feitos, grandes parques de estacionamento.   

Muitas vezes entrei, com a minha Mãe, na mercearia que havia na Alfredo da Costa, a chegar à Câmara, praticamente em frente à escola Conde Ferreira, agora Espaço do Cidadão que, salvo erro e eventual esquecimento, se chamava “Barata”. Na ida para a Serra, a minha Mãe comprava lá, para levar, um cartucho de café. Não sei a quantidade, mas era um cartucho, daqueles cinzentos às riscas encarnadas e que se fechavam em cima fazendo uma ou duas dobras e, depois, puxando e dobrando dos dois lados para o meio as duas pontas, como se fossem duas orelhas. Agora, são esplanadas até quase aos frangos.

Na mesma rua, no sentido da Estefânia, a sapataria Teixeira, mais ou menos a meio. Eram caros os sapatos. Para nós, quando os houve, só na Bramonte de São Pedro apontado no livrinho das cobranças a prestações. Veio-me à lembrança, por causa da Bramonte, o falecido Zé Carvalho com quem convivi bastante, com gosto, na Junta de Freguesia de São Pedro de Penaferrim que, também já era, e que muito pouca vontade política existe, para que volte a ser. Foi nos mandatos do Conde de Saborosa e do João Alberto Peniche.

Lá mais para a frente, na Alameda dos Heróis da Grande Guerra que para os sintrenses sempre será “a correnteza”, conseguimos vislumbrar dos mais bonitos panoramas da “Vila de Sintra”. Como em outras circunstâncias, também aqui borraram o bonito “quadro” com salpicos de grandes gruas e guindastes que desfeiam, e de que maneira, toda a paisagem.

A bica, há mais de 50 anos (do Google)
Guardando para outras caçadas aos “mistérios” das estradas de Sintra, resta-me lembrar que a ida a Sintra não fica completa sem a indispensável passagem pelo Cyntia. Já não está lá o Ti Rodolfo que, por uma bica, muitos serões, me aturou, até que a “Boa Viagem” da “Meia-Noite” viesse, para me levar e a outros de volta à Abrunheira, depois das lições na Escola do Cacém. O Ti João, que com um sócio lhe sucedeu, manteve a bondade e a paciência a que estávamos habituados. Hoje, está lá o filho Ricardo que herdou do pai tudo de bom, acompanhado pelo Artur mais conhecido de Sintra e arredores. Agora, quando lá entro, até parece que estou num qualquer outro sítio, no estrangeiro. Raramente se fala a língua de Camões como, aliás, acontece em todos os lugares de Sintra.

Silvestre Brandão Félix
11 outubro de 2019



domingo, 30 de setembro de 2018

LIVRA-NOS OS "INTELIGENTES"... LAGARTO! LAGARTO!


Devia ser por esta altura do ano porque, poucos dias depois, sempre a 7 de outubro, comecei a escola na 3ª ou 4ª classe, lá, na velhinha, naquela que deu o nome à atual Rua da Escola.  
 
Tudo como costume, saia para o “monte” com a Marcina, a Branquinha, a Estrela e a filha que ainda não tinha nome, e a nossa espertalhona, Burra Carocha. Aguentei-as um bocado do lado de dentro do portão porque o Ti João estava a sair com o seu rebanho de ovelhas.

A Belinha, porque me sentiu, saiu do meio do rebanho a balir, toda contente, e veio ter comigo pedir uma festa. Não lhe dei uma, dei-lhe várias. Na forma de comunicação dela, balindo, lá me disse alguma coisa, carinhosa decerto, e voltou para junto das suas companheiras de rebanho. A Belinha ficou sem mãe quando nasceu e eu comprometi-me com o Ti João a criá-la.

A Ti Augusta ao princípio não ficou muito contente, mas depois… não queria ela outra coisa e fartou-se de chorar quando a “borreguinha” voltou para o rebanho. Ela e eu! Andava em casa como se fosse um gato ou um cão, lá bebia o biberon e, muitas vezes, ia ter comigo à cama. Claro, cresceu rapidamente e não podia lá continuar. Mas todas as vezes que nos via ou sentia, não se calava e só, se não podia, é que não vinha ter connosco.

Bem, entretanto, o rebanho lá foi e, a seguir, mandei o meu “pessoal” sair, devagar. Elas já sabiam que, antes de mais nada, iam beber água ao Santo António. A Carocha era sempre a primeira e quando lá chegava com as vacas, ela já tinha meio bandulho cheio de água.

Como acontecia todos os dias, o tanque estava cheio de vizinhas a lavar a roupa, com aquele som característico de “tagarelisse”. Lembro-me de muitas caras, mas os nomes, é que é, pior; como é “público”, tenho uma relação muito conflituosa com a lembrança de nomes de pessoas e de coisas. Que hei de fazer? É com certeza a PDI. Mas consigo sempre lembrar-me da Ti Maria do Florindo, da Ti Ilda do Zé N’olas, da Ti Maximina e é melhor não arriscar mais.

Bom, bandulhos cheios, respostas educadas para as “lavadeiras” e, ala que se faz tarde, até aos Celões, mesmo nas "bochechas" do Linhó. Naquela altura, a erva já tinha rebentado o suficiente para o saboroso pasto das “minhas-ruminantes”, e elas, mais ou menos, já sabiam o caminho, era só preciso dar um toque na altura certa porque havia mais do que um destino possível.


Naquele caso, o destino era o mais longe, mas também o preferido porque tinha muita escolha. Do Santo António virávamos à direita, mais à direita ao Ti Alexandre, depois de passar as “Pateiras” outra vez à direita passando ao Chamiço e, mais à frente, atravessando o nosso Rio das Sesmarias e, um pouco acima, a regueira dos barros que lá à frente, antes dos “Quatro-Donos”, desaguava no Rio das Sesmarias. 

Quando estávamos a chegar à esquina dos “Celões”, a Carocha, que já ia lá à frente, parou e recuou dois passos, ficando assim a olhar para as silvas com as orelhas bem esticadas e, arreganhando os dentes, zurrou! O caminho não era muito largo, mas consegui que as vacas a contornassem e passassem à frente, continuando até à entrada dos “Celões”. Ela, a Burra espertalhona, tinha “pegado ali de estaca” e continuava com os dentes arreganhados e, de vez em quando, batia com a pata direita.

Depois das “outras” estarem em segurança da parte de dentro dos “Celões” e a iniciarem a função do pasto, olhei para o mesmo sítio da Carocha e o que vi: Um lagartão bem verde, especado e feito parvo a olhar para ela. Desde a ponta do rabo, até à cabeçorra, tinha aí meio metro. Antes que ela lhe pusesse a pata em cima, fiz barulho com o pau e o nosso amigo acordou daquela letargia hipnótica, e arrastou-se para dentro das silvas e carrascos.     

Teve muita sorte, o lagartão, de não estar por perto o meu primo Fernando ou, até, o Zé Augusto, porque senão, não se safava assim.  

Tempo bem controlado pelo relógio de sol antes construído no cantinho onde costumava passar o tempo, e, vamos lá embora de regresso. Chamado o “pessoal”, lá vieram e, como sempre, a “dona” Carocha à frente toda lampeira. Quando passamos pelo sítio onde antes estava o “lagartão”, todas passaram, mas a burra-espertalhona parou. Ela sabia que, há duas horas, tinha estado ali a namorar o “rastejante”. Eu quis entender o que ia naquela cabeça que eles diziam ser de burra e, quando a vi arreganhar a dentuça e zurrar na direção que o lagarto tinha tomado e bater duas ou três vezes com a pata direita no chão, percebi que de “burra”, como nós entendemos, não tinha nada. Fiz-lhe uma festa no pescoço e dei-lhe uma carinhosa palmadita no quadril, e lá arrancou, genuinamente contente, com o “tempo de glória” que lhe tinha dado.

Esta lição, ainda a trago hoje comigo.

Até os “burros” gostam de ter o seu tempo de glória e de antena, quanto mais os “inteligentes”!

Ao longo da vida, infelizmente, muitos “inteligentes” por mim passaram… e ainda conheço alguns!

Silvestre Brandão Félix
30 setembro de 2018
Gravura e Foto: Google   

domingo, 23 de setembro de 2018

CHUVA EM AGOSTO, AS FESTAS E O TI RAFAEL


No meio de mais um braçado de erva cortada rentinha pela serrilha da foice movida pela sua força em jeito, deito-lhe mais uma pergunta:

— Oh, mãe, porque chamam ao Ti Rafael — Rafael “coxo”? Ele não é coxo, nem nada!

Naquele ano, as primeiras águas vieram ainda em agosto e não foram poucas. Não tínhamos chegado ao final de setembro e, em resultado dessa chuva, dada a invulgaridade do tempo, a minha mãe já podia fazer um mimo à Marcina, à Estrela, à Bonita e também à burra Carocha que, atrelada à carroça, na espera, já ia provando aquela delícia verde e fresquinha.

— Oh, filho, agora que perguntas, deixa-me cá pensar…

Ao contrário do que era habitual, a minha mãe fica um bocado engasgada, não responde logo e volto à carga.

— Não sabe porquê, mãe?

— Não é isso, é que … se calhar …

Observando aquela indecisão da minha mãe, fiquei preocupado e até um pouco inseguro, porque não havia nada que lhe perguntasse, que não tivesse resposta imediata. De repente, posando a erva que tinha na mão:

— Se calhar foi alguma altura em que o Ti Rafael torceu algum pé ou se aleijou na perna e, coxeando, começaram a chamar-lhe “Coxo”.

— Ah, bem, estava a ver que não sabia…

Satisfeito com a resposta, decerto improvisada, a minha mãe voltou à erva que, à medida que ficava solta pelo corte da foice, a mão esquerda segurava e ia deixando num “monte” para, depois, juntar e fazer molhos atados pelo meio, com uma corda que, numa das pontas, tinha um gancho em madeira por onde a corda corria e, bem apertada, se fazia um nó.

Este acessório de madeira era descoberto preferencialmente nos zambujeiros e, habilidosamente, cortado e acabado à mão pelo meu pai. Havia muitas destas cordas com o dito gancho, lá em casa.

A propósito dos festejos que a URCA este ano realizou, e sempre que tal acontece, lembro-me do meu tio Rafael. Este homem popular e amigo de toda a gente, tinha um espírito empreendedor, como poucos.

Qualquer evento que se realizasse na Abrunheira, lá estava o Ti Rafael com três tábuas armadas, fazendo de balcão, com os copos e as cervejas logo a sair.

No fundo das minhas lembranças, permanecem as festas da chegada da luz elétrica à Abrunheira, no antigo largo em frente à Quinta do Olival e à Quinta de Santo António, no limite do atual Beco da Saudade. Lá estava o Ti Rafael com a sua “tasca” alindada com folhas de palmeira, tal como o palco e, para além de taberneiro, também assumia o papel de animador; metia conversa com toda a gente, sempre com um grande sorriso e com uma deixa que a manteve até ao fim:

“Tá, por’i, tá!  Lembram-se?

Silvestre Brandão Félix
23 setembro de 2018
Gravura: Arraial (Lisbonne Idee - Google)

terça-feira, 22 de julho de 2014

CALCORREANDO

Muito calcorreávamos as ruas da nossa Terra porque de máquinas andantes ainda nem o inferno estava cheio, quanto mais o céu. Mesmo as bicicletas só chegavam a bolsos mais aconchegados. O alcatrão ainda era pouco porque as ruas, a principal e as outras, «nos dedos duma mão, bem cabiam»! O caminho era negro desde a entrada, à padaria, em direção ao Chafariz e um pouco mais “ralo” (via-se mais pedras que alcatrão) no largo até à menina Emília, pelo Sigamó até ao Olival. Daí para cima até à estrada na curva, era calçada à portuguesa um bocado mal- amanhada. Para baixo do Chafariz, pela principal, o alcatrão era melhor até acabar a seguir à curva do Ti Faneca. Até onde vai a lembradura desta descrição, o “Curronquinho” ainda não tinha alcatrão e muito menos vivendas. Era o caminho mais apetitoso para calcorrear. Tinha sempre uma erva muito rentinha, parecia relva plantada. Da curva até ao nosso castelo em ruinas era sempre relvinha fofa. Esta fortaleza, onde espadeirávamos horas a fio, estava um bocadinho a seguir, onde muito tempo depois, com a construção do bairro, havia de ser plantado o “nosso” café – primeiro do Ramos e depois do Cabaço.

Também de relvinha fofa calcorreava, com o Zé Fernando, Zé Augusto, Rui, Fernando Pedroso, Filomeno e, se calhar, com mais outros que a minha memória negligenciou no ficheiro do tempo, aquela que era azinhaga desde a esquina da casa da fruta do “Pechincha”, junto ao Rio das Sesmarias, até ao passadouro para o lado da pedreira do Ti Miguel. Onde agora, na segunda década deste desgraçado século XXI, existe uma ponte, O das Sesmarias autorizava que o atravessássemos colocando os andantes nas pedras altas que, uma-a-uma, nos levada à outra margem. Muitas vezes, pela relvinha, calcorreávamos com os nossos “carrinhos-de-arame”, para desembocar, não no Rio, mas subindo à direita até à oficina (dos carrinhos-de-arame) do Zé Fernando. Aí, reparávamos todas as avarias endireitando as rodas e reforçando as ligações ao eixo de direção que era uma cana bem comprida que levava o volante até à altura do condutor. Também na oficina preparávamos os atrelados que, quase sempre, derivavam de “dignas” e, antes, nutritivas latas de conservas nacionais. Naquela época, já de arreliados dias bélicos pelas colónias e onde, irmãos ou primos mais velhos, por obrigação, guerreavam a mando do salazarento regime, as conservas eram sempre nacionais. Não carecia de verificarmos a origem do atum, da sardinha ou das enchovas. Não corríamos o risco de utilizarmos atrelados que tivessem vindo dos “nuestros hermanos”, como agora, neste desgraçado século XXI que já vai na segunda década e onde, cada vez mais, sinto inglórias as grandes batalhas nos céus da Europa em guerra, protagonizadas (do lado dos que aprendi a serem os bons nos muitos “quadradinhos” que devorei) pelo Major Alvega. 

Muito andávamos a pé e, alguns de nós, “dos putos”, literalmente. Nem todos tinham o “privilégio” de poder usar, nos pés; botas, sapatos ou, simplesmente, chinelos. Calçados ou descalços lá calcorreávamos os caminhos da Abrunheira, juntos ou sozinhos, com a maior das naturalidades. Os calçados, para trabalho dos sapateiros que, cá na Terra, eram verdadeiros artistas. Não contando com outros também famosos que já não eram, que deles se dizia e eu ouvia «tivessem a alma em descanso» como o “Sapateiro de Manique” porque era de Manique, claro está! Muitos contos (de histórias, não de dinheiro) me narraram deste sapateiro que por companhia tinha o “Cabeço de Manique” e que, para além de amanhar botas e outro calçado, também tinha rebanho de ovelhas que lhe completava o rendimento no leite, lã e na feitura de eiras para debulha de cereais durante o verão. Por isso mesmo, o Silvestre Velho não prescindia da sua vinda. “Velho” no meu avô não era nome, era da idade e dos cabelos e bigode brancos. Os filhos homens que com ele andavam na lida do campo e os que por outras bandas se governavam, eram conhecidos pelo nome próprio mais o do pai que, assim, funcionava como alcunha, sendo que, quando se referiam ao verdadeiro Silvestre, acrescentavam o “Velho” para não se confundir com os filhos.

Ainda na onda dos sapateiros, outros havia que a alcunha não tinha nada a ver com o nome do pai ou avô, como o Ti J’aquim (Cagachuva), mas decerto com outras circunstâncias nada simpáticas para o simples olfato de qualquer abrunhense. Bom artista de calçado e muito bom contador de histórias. Sempre as ouvia com gosto mesmo sendo uma segunda, terceira ou décima vez contada. É assim como aqueles filmes que vemos vezes sem conta, e sempre gostamos como se, de primeira, sempre seja. Outro artista sapateiro havia, que se foi deste mundo há bem pouco tempo já neste desgraçado século vinte e um. O Zé Celorico, como a minha Mãe lhe chamava porque veio de Celorico da Beira. Com o Ti Zé partilhei labuta – a minha primeira na condição de assalariado. Na Atil, que já não é, eu e muitos rapazes da minha idade, na dita, com catorze de tempo contado em anos – um puto, aprendíamos a disciplina e as agruras do operariado. Não é do meu “ser”, nem teria razões para me queixar. Era bem tratado e por lá, na secção de pintura, o Ti Zé Celorico pintava tudo o que de embelezamento precisava.

A adesão à classe trabalhadora naquela altura foi por vontade própria, porque, acreditava, a alternativa estudantina, para mim, era bem mais dura. A Ti Augusta fez tudo o que lhe estava ao alcance para me convencer do contrário, mesmo sofrendo todos os dias com o meu começo de jornada desde a Abrunheira até ao Cacém…

“Escuro, mas muito escuro e a chuva caía às dez para as seis da manhã como já caía às dez da noite de ontem.
— Não filho, assim não! Descalça lá os botins primeiro! Isso! Põe o pé aqui no banco. A Mãe vai enrolar o jornal nas tuas pernas para não ficares com frio. Já podes calçar este botim. Agora a outra perna, põe aqui o pé! Isso! Assim ficas mais quentinho!
— Oh Mãe! Deixo ficar assim, todo o dia?
— Sim! Não tires antes de chegares a casa!
— Com a saca bem presa à cintura, não molhas as pernas! Segura bem o chapéu-de- chuva junto à cabeça. Quando vires a camioneta a chegar, desatas o cordel e deitas a saca fora!
— Tá bem Mãe, até logo!  
— Tem cuidado, vai sempre p’la beirinha e olha bem quando atravessares para os “plásticos”. Dá cá um beijinho!

A chuva caía sempre! Gostava mais de ir pelos eucaliptos até à Charneca, embora mais longe e descampado, porque pela quinta “Lavi” até aos “plásticos” era muito escuro e no pinhal parecia que estava sempre lá alguém escondido…tinha medo! Os botins pesavam e chapinhavam na água acumulada. A camioneta do “Eduardo Jorge”, muito amarelinha, passava às seis e vinte da manhã. Quando entrava às oito no Cacém, não tinha outra hipótese. E os botins frios e pesados. E a professora de Matemática… que raio de lembrança. Corredores, escola velha, escola nova, oficinas, recreio e sandes de mortadela no Ti Rodrigues com sobremesa de cigarrito a dois, cinco tostões. O fulano da “Mocidade Portuguesa”, o “chefe de castelo” ou lá o que era, não nos largava. Insistia comigo e com outros para não faltarmos no sábado. Desde que o tipo me obrigou a marchar sozinho, nunca mais lá pus os pés. Andavam sempre a dizer que contava para a “nota” mas era mentira.”

Calcorreando uma vida inteira por esses caminhos. Chegados ao largo, que pode ter “Chafariz” ou não, que deveria ter todas as saídas embelezadas e de piso direitinho sem pretextos para tropeções, deparamo-nos com um muro fechado a toda a volta e, na maior parte das vezes, a azinhaga donde viemos também se fecha atrás. 

É urgente encontrar uma brecha no muro para continuarmos o “calcorreamento”. Tem de haver uma falha!

— O que achas oh Bernardino que não és Coutinho? Consegues guiar-me para esburacar a parede? (pergunta de picareta – ferramenta da caixa do Coutinho que era Bernardino)
— Acho que sim! (diz o Coutinho que era Bernardino). Com a minha força delegada em competência, pelo povo da nossa “Terra”, e com toda a “ciência da pedra”, arte minha aperfeiçoada em muito tempo de anos contado, e com a tua rijeza de bom ferro fundido em forja bem quentinha, vou conseguir enfiar-te pelo muro dentro e encontrar uma saída, mesmo que seja muito estreita!

Silvestre Félix

(Factos e outros não, ficcionados na minha onda incluindo alguns nomes reais e outros inventados.)


22 de Julho de 2014  

domingo, 8 de dezembro de 2013

HINO À VIDA!


 – Oh filho, quando fores por esses caminhos acima tens de olhar bem lá para a frente e, ao mesmo tempo, deves ter sempre muito cuidado com quem pode vir atrás…
Primeiro atravessava o das Sesmarias e depois, lá mais acima, a regueira da mulata. As vaquitas e, na maior parte das vezes a Carocha que de burra tinha pouco, tinham a dianteira que bem sabiam o destino largo dos Celões. Entravam sem engano na ponta de baixo à esquerda e nunca tiveram a ousadia de seguir em frente em direção ao Linhó.
Por esses caminhos acima… os degraus da vida, de que a Minha Mãe sempre me falava. As Mães da Abrunheira eram iguais às outras. Todas eram as melhores para cada um dos putos abrunhenses e eu não era exceção – Não havia Mãe melhor, que a Minha! Estava sempre disponível para me ensinar mais um degrau e, muitas das vezes, com exemplos da sua vida cheia e rica de labuta pela família e futuro dos filhos. Tanto tempo contado em anos passados, não são poucas as vezes que uso e pratico os seus ensinamentos.
No tempo que passo em horas, dias e anos, teclando escritos fluidos da parte arrumada da memória, e sendo Abrunheira a temática, é certo e sabido que nas subidas e descidas das mais variadas personagens pelo palco, nas falas e deixas que compõem o nosso teatro, lá está sempre com o seu papel bem estudado, a Minha Mãe! Algumas das perguntas e respostas, frases soltas e coladas dos nossos diálogos, aparecem, de quando em vez, nas minhas “postagens” ou, simplesmente, em rascunhos que por aqui vão ficando.
 – Oh Mãe, os Índios são todos maus e os cowboys são os bons?
 – Não filho! Há bons e maus nos dois lados!
 – Oh Mãe, mas nos “quadradinhos”, escrevem que os Índios é que são os maus…
 – Eu sei filho, mas os que escrevem também podem estar enganados…
 – Mas naquele filme que eu vi na “sociedade” à noite com a Felicidade e o Alfredo, eles também diziam que os bons eram os tropas e os maus, os Índios…
 – Está bem filho, mas quem faz os filmes também se pode enganar. Quando fores maior vais perceber melhor…
 – Oh Mãe, quando eu for grande também vou para a tropa?
 – Vais, todos os homens vão à tropa!
 – Mas oh Mãe, eu não gosto da tropa nem da guerra… quando for para a tropa também tenho que ir para a guerra?
 – Não filho! Ainda faltam muitos anos para ires para a tropa e, quando fores, a guerra já acabou!
 – Oh Mãe, na Guerra das Áfricas os “Magalas” também morrem como naqueles livros aos “quadradinhos” da Guerra dos alemães e do Major Alvega?
 – Oh Filho, tens de ter muito cuidado para ninguém ouvir esta conversa. Vê lá se está aí alguém desse lado.
 – Não Mãe, aqui não está ninguém!
 – A Mãe também não gosta da tropa nem da guerra, mas não digas isto a ninguém porque os que dizem que são bons, podem vir fazer mal à gente…
A "Ti Augusta" desfazia-se em lágrimas, cada vez que tinha, por qualquer razão, de desfazer-se de alguma das suas bichinhas – ajudava-as a nascer, criava-as, aliviava-as da pressão do primeiro úbere cheio festejando a transformação em leite, acompanhava o primeiro cio com o cuidado que a situação requeria e, para fecho de ciclo, tratava-as e preparava-as para a função de mães, recomeçando tudo outra vez.
A Minha Mãe era um hino à vida. Hoje, a melhor Mãe do mundo, não me sai do pensamento…
Silvestre Félix

quarta-feira, 15 de junho de 2011

AS NOSSAS MÃES!

Oh filho, quando fores por esses caminhos acima tens de olhar bem lá para a frente e, ao mesmo tempo, deves ter sempre muito cuidado com quem pode vir atrás… Primeiro atravessava o das Sesmarias e depois, lá mais acima, a regueira da mulata. As vaquitas e, na maior parte das vezes a Carocha que de burra tinha pouco, tinham a dianteira que bem sabiam o destino largo dos Celões. Entravam sem engano na ponta de baixo à esquerda e nunca tiveram a ousadia de seguir em frente em direção ao Linhó.
Por esses caminhos acima… os degraus da vida, de que a Minha Mãe sempre me falava. As Mães da Abrunheira eram iguais às outras. Todas eram as melhores para cada um dos putos abrunhenses e eu não era exceção – Não havia Mãe melhor, que a Minha! Estava sempre disponível para me ensinar mais um degrau e, muitas das vezes, com exemplos da sua vida cheia e rica de labuta pela família e futuro dos filhos. Tanto tempo contado em anos passados, não são poucas as vezes que uso e pratico os seus ensinamentos.
No tempo que passo em horas, dias e anos, teclando escritos fluidos da parte arrumada da memória, e sendo Abrunheira a temática, é certo e sabido que nas subidas e descidas das mais variadas personagens pelo palco, nas falas e deixas que compõem o nosso teatro, lá está sempre com o seu papel bem estudado, a Minha Mãe! Algumas das perguntas e respostas, frases soltas e coladas dos nossos diálogos, aparecem de quando em vez nas minhas postagens ou, simplesmente, em manuscritos que por aqui vão ficando…


Oh Mãe, os Índios são todos maus e os cowboys são os bons? Não filho! Há bons e maus nos dois lados! Oh Mãe, mas nos “quadradinhos”, escrevem que os Índios é que são os maus… Eu sei filho, mas os que escrevem também podem estar enganados… Mas naquele filme que eu vi na “sociedade” à noite com a Felicidade e o Alfredo, eles também diziam que os bons eram os tropas e os maus, os Índios… Está bem filho, mas quem faz os filmes também se pode enganar. Quando fores maior vais perceber melhor…
Oh Mãe, quando eu for grande também vou para a tropa? Vais, todos os homens vão à tropa! Mas oh Mãe, eu não gosto da tropa nem da guerra… quando for para a tropa também tenho que ir para a guerra? Não filho! Ainda faltam muitos anos para ires para a tropa e, quando fores, a guerra já acabou! Oh Mãe, na Guerra das Áfricas os “Magalas” também morrem como naqueles livros aos “quadradinhos” da Guerra dos alemães e do Major Alvega?
Oh Filho, tens de ter muito cuidado para ninguém ouvir esta conversa. Vê lá se está aí alguém desse lado.
Não Mãe, aqui não está ninguém!
A Mãe também não gosta da tropa nem da guerra, mas não digas isto a ninguém porque os que dizem que são os bons, podem vir fazer mal à gente…


A "Ti Augusta" desfazia-se em lágrimas, cada vez que tinha, por qualquer razão, de desfazer-se de alguma das suas bichinhas – ajudava-as a nascer, criava-as, aliviava-as da pressão do primeiro úbere cheio festejando a transformação em leite, acompanhava o primeiro cio com o cuidado que a situação requeria e, para fecho de ciclo, tratava-as e preparava-as para a função de mães, recomeçando tudo outra vez.


A Minha Mãe fazia anos a 12 de Junho, véspera de Santo António.


Silvestre Félix
12 de Junho de 2011

terça-feira, 15 de março de 2011

NO LUSCO-FUSCO ABRUNHENSE

E a mim não me escapavam as notícias que saíam daquele rádio de plástico de cor bege que descansava na mesa da cozinha com a antena bem esticadinha para o teto. As sílabas mais difíceis eram soletradas devagar mas já conseguia ler bem o jornal “O Século” na taberna do Ti Álvaro

(Pergunta o inteligente) Na taberna? Mas os putos….

Sim, eu sei… mas o Ti Álvaro deixava-me ler “O século” durante o dia.

Elas, as notícias, estavam lá, podiam não estar todas porque os homens do lápis azul cortavam muitas, principalmente as que falavam do “Estado Português da Índia” que já não era, porque o Nehru, uns dias antes do Natal, tinha expulsado os militares portugueses de Nagar-Aveli, Goa, Damão e Diu. Também riscavam e cortavam todos os telegramas e telexes sobre a Guerra que tinha começado em Angola e nunca deixavam escrever sobre os nossos tropas que iam em navios para lá. Mas eu lia as notícias da Guerra do Vietname que era com os Americanos e os homens do lápis azul não se importavam.

Oh Mãe… quando o Vitor for p’a tropa já não há guerra, pois não?

Ai Filho, Deus queira que não, ai… valha-me Deus, o que te havias de lembrar.

Oh Mãe, quando eu for p’a tropa já não há guerra em Angola pois não?

Oh Filho… falta muito tempo contado em anos para ires para a tropa.

Mãe, eu não gosto da tropa.

Filho, não digas isso, fala baixinho… «diz a minha Mãe olhando à volta muito aflita, porque naquela época salazarenta até as paredes tinham ouvidos.»

À hora da última ordenha…

(que digo assim só para que neste tempo se entenda, porque em todas as vacarias da Abrunheira se dizia “mungir” e “mungidela”)

…e da última refeição de manjedoura bem cheia de palha, feno e ração demolhada com “talinhos” de alfarroba, o meu destino ficava em caminho e no banco corrido da “sociedade” conseguia ver as imagens na caixinha da televisão que o Jorge Farpela ligava à mesma hora que o Ti Américo, a mulher Ausenda, ou o Zé da Natália, abriam o “posto do leite” no sítio onde, no tempo de agora, tem um café que se chama “O Combatente”. Todos se encaminhavam, durante uma hora de tempo contado, para o “posto do leite”, levando o precioso líquido para o “grémio”. No dia seguinte, muito cedo, os úberes das vacas lá voltavam a fazer pressão nas tetas apressando a mungidela da manhã.

(E dizia o inteligente) – Vaca, úbere, tetas… mas que raio de linguagem… daqui a cinquenta de tempo contado em anos, tudo isto tem outro significado. A Abrunheira é terra pacífica e os abrunhenses estão todos de bem com a nação (por enquanto. Digo eu que sou inteligente e não pio o que sei a ninguém) mas é bom não arriscar, deixando que a “mostarda” lhes chegue ao nariz.

Na “sociedade” via, e lia, os desenhos animados. As legendas passavam depressa e eu corria atrás sem me distrair: O “Perna-longa” o “Gato Félix” e o “Gato Silvestre”, o “Bip-Bip”, o “Speed-Gonzalez”, etc., eram alguns dos heróis.

No lusco-fusco abrunhense e os postes da luz já acesos. De baixo para cima em direção ao Chafariz, a luz do interior da taberna do Ti Álvaro era amarela. Sem som, como se de mimos falássemos, mexiam os braços com copos na mão. De dois ou de três, os copos eram sempre cheios de vinho e depressa se despejavam naquelas gargantas sedentas.

Oh Filho! Espreita só, não entres!

E eu espreitava e via e não ouvia!

Na Abrunheira, os copos de dois ou de três, envenenavam a alma. As passadas trôpegas avançavam num trilho irregular e, pela noite dentro, não traziam a boa-nova, o carinho, o bom trato.

Durante o dia, eu lia o jornal “O Século” na taberna do Ti Álvaro e não havia notícia que me escapasse. Mesmo as que não estavam escritas ou haviam sido riscadas a lápis azul, eu, as conseguia adivinhar …, sem que o “inteligente” desse por isso…

Silvestre Félix