terça-feira, 7 de abril de 2015
Largo do Chafariz: DESTE LADO DA SERRA
Largo do Chafariz: DESTE LADO DA SERRA: Deste lado da Serra, perdemos quase tudo! Foi o Centro de Saúde, o Centro Social, a ligação direta à Capa Rota, a Junta de Freguesia, o...
DESTE LADO DA SERRA
Foi o Centro
de Saúde, o Centro Social, a ligação direta à Capa Rota, a Junta de Freguesia,
o quartel da GNR, a Escola Secundária, os equipamentos desportivos, como o multiusos,
a piscina e o campo de futebol, etc., etc.
Perdemos
líderes carismáticos e honestos que se “batam” pelos interesses e necessidades
das populações deste lado, onde o SOL toca primeiro. Eu cá, desconfio que, mais
cedo ou mais tarde, tentarão mudá-lo de sítio (ao SOL) para que, primeiro,
apareça do lado de lá…
Há quem já
tenha dito e escrito, que até perdemos o direito a “presidências abertas”
[abertas]. Parece que são mais p’ró “fechadas”. Eles, não sabem, nem “sonham”,
como ir “por esses caminhos acima”. Pudera, se soubessem, não tinham deixado
que os perdêssemos. Já era (ou foi), a ligação a Ranholas pela Rua da
Abrunheira que, por aí acima, a Ti Augusta me levava pela mão até ao mercado
ou, muitas outras vezes, até ao miolo da Serra, à Casa da Tapada que também era
e ainda é, “Do Roma”, juntinho ao Palácio dos Milhões que a minha Mãe nunca se
esquecia, da “estória” me contar; o caminho, por aí a cima, aos “Celões” até ao
Linhó com pedras mil vezes pisadas pelos cascos da Marcina, da Bonita, da
Estrela e da burra (salvo-seja) Carocha, ainda antes, desapareceu engolido pelo
condomínio que, do Casal da Beloura com caminho também feito e serventia para os
rebanhos do Ti Zé da Beloura, só o nome ficou.
É só a
perder…
Até o Rio
das Sesmarias foi despromovido para “ribeira” e, ainda-por-cima, de Colaride.
Na mesma onda perdedora, lá foram “à vida” as cigarras e os grilos e com eles
levaram as suas cantorias que, por esta altura, começavam a inundar os nossos
campos.
Deste lado
da Serra perdemos quase tudo…
Fica a
dignidade!
Silvestre
Félix
7 de
abril de 2015
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
COMO É QUE SE CHAMA ESTA FRUTA?
A perícia
com que escolhia as cebolas e as dispunha por tamanhos, qual calibrador moderno
e automático; o cuidado a tirar as “cascas”
velhas, cortar “direitinho” os tufos de raízes e folhas inúteis da planta; a arte,
precisa, com que entrançava as folhas secas ao centro, e fazia com que as
cebolas ficassem agarradas, umas, a seguir às outras e, assim, em pouco tempo,
construía a obra perfeita denominada—“réstia”.
Peça única, incluindo a dose certa
de “marketing” acoplado, traduzido na
beleza que irradiava, aos olhos dos potenciais consumidores ou, eventualmente,
compradores – sim, porque, tendo o meu saudoso Pai, partido desta vida, vai
para trinta e nove de tempo contado em anos, quando se dedicava com esmero e
profissionalismo à arte de hortelão e agricultor, não carecia de emitir fatura
eletrónica, para poder trocar o excedente.

Há uns dias,
numa “catedral” de consumismo aqui
perto, onde eu também vou, perguntava um miúdo para a mãe que, com o desespero
da falta de tempo e cuidado, ao escolher umas cebolas numa “piscina” delas, a granel, deixou cair
duas pelo chão que, rebolando, pareciam ganhar velocidade em excesso, correndo,
até, o risco de serem multadas por algum “polícia” escondido atrás dos outros
caixotes que, por ali, estão estacionados.
— Oh mãe,
como é que se chama esta “fruta”?
— Chama-se
cebola, filho!
A mãe, com
vinte e poucos anos de idade, respondeu duma maneira muito crente. Não hesitou,
e achou que falou certo. O filho não tinha mais do que cinco anos e, como é
normal, voltou à “carga”.
— Oh mãe,
como é que se chama a árvore que dá a cebola?
Mais uma
vez, a mãe, “certíssima” do que
estava a dizer, respondeu:
— Nunca vi
nenhuma, mas acho que é “Ceboleira”!
Já não se
fazem réstias de cebolas…
E o meu Pai
preparava o canteiro, muito direitinho, bem estrumado e deitava-lhe a semente.
Alguns dias, e os pontinhos verdes do “cebolo”
começavam a despontar e, rapidamente subiam até um palmo. Por essa altura, começava
a arrancar as pequenas plantas e separava-as em “centos” (cem unidades),
atados com umas folhas muito compridas duma planta do nosso Rio das Sesmarias. As primeiras, quase
sempre, eram as que ele precisava para plantar e, mais tarde, colher cebolas.
Os restantes “cebolinhos” distribuía
por algumas pessoas e, se ainda sobrassem, o próximo mercado de São Pedro
tratava de os absorver.
Já não se
fazem réstias de cebolas… e muitas outras coisas.
Mudam tudo. “Pelo andar da carruagem”,
as tardes soalheiras serão transformadas em permanente “lusco-fusco” de modo a que, nem de uma réstia de sol, a “gente” possa beneficiar.
Silvestre
Félix
14 de
janeiro de 2015
(Foto: Google)
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
IGREJA DE SANTO ANTÓNIO DA ABRUNHEIRA
Muitas
pessoas assistiram à inauguração da Capela polivalente e Capela da
Ressurreição, correspondendo à primeira fase de construção da Igreja de Santo
António da Abrunheira, neste domingo, dia 7 de dezembro.
Num maravilhoso
dia de sol, os convidados e a população em geral, assistiram ao descerramento
da placa que deixa registado o momento, na parede do edifício, para a
posterioridade.
Presentes
nesta cerimónia: Senhor Bispo Dom Joaquim Mendes; Presidente da Assembleia
Municipal de Sintra e, também, em representação do Presidente da Câmara
Municipal, Dr. Domingos Quintas; Eduardo Casinhas, Presidente da União das
Freguesias de Sintra e a Vogal Paula Bento Santos; Fernando Pereira, Presidente
da Assembleia de Freguesia da União das Freguesias de Sintra e, muita gente,
que encheu completamente o espaço das duas Capelas, mais as que não conseguiram
entrar, para assistir à Eucaristia presidida pelo Senhor Bispo.
A Abrunheira
fica, assim, mais rica. Não só pela vertente religiosa, com a realização de
missa semanal e local para desenvolver todas as atividades inerentes ao serviço
de paróquia mas, também, por toda a população passar a dispor dum local para
velar os seus mortos, independentemente da sua religiosidade, em vez de o ter
de fazer longe das suas moradas.
Silvestre
Félix
8 de
dezembro de 2014
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
NORTE DA ABRUNHEIRA, HISTÓRIA E GEOGRAFIA AO PÉ DE CASA.
—
Desnorteado estou eu, com a ventania que por aí anda! Diz que não, diz que não
te tira o sono e depois queixa-te!
— Oh
Coutinho, mas então, o que me interessa a mim, o que vai acontecer daqui a cinquenta
ou sessenta anos?
— Ai não te
interessa, não?
— A mim,
não! Nessa altura já sou tijolo bem ressequido.
— Pois a mim
interessa-me, e muito. Estão a meter-se com o nosso amigo Rio-das-Sesmarias. Eu
cá, já estou habituado às “trocas e baldrocas”; tanto me chamam Bernardino que
não sou Coutinho, como Coutinho que sou Bernardino e outros nomes e alcunhas
que agora não vem ao caso, mas, com o Rio-das-Sesmarias, “fia mais fino”. Nortadas
à parte, não posso “levar à paciência” que lhe troquem o nome.
— Concordo
contigo mas …
— Mas o quê??!!
Não me digas que não te importas que, passando muito tempo lá para a frente;
contado em anos pr’aí uns cinquenta ou sessenta, venham uns gajos de gravata
dizer que não eras Artista-Sapateiro, que ignoravas a “geografia-ao-pé-de casa”,
que não usavas boné, que te chamavas Manel e que cagavas ao sol em vez de o
fazeres à chuva?
— Tens
razão, Coutinho! Mesmo já não andando por cá, sabendo duma aldrabice dessas,
não ficava nada satisfeito. Estou disposto, contigo e com quem mais tu achares
de valia, a lutar pela verdade, eliminando, com quantas cajadadas for preciso,
a ignorância e o desnorte que por aí abunda.
E os dois “Abrunhenses”
lá foram andando, do “Lugar de Baixo”, a sul, para o “Lugar de Cima”, a norte.
Passaram o Santo António, o “Espanhol”, o “Silvestre-Velho” que, como
comandante à proa do navio, do alto da varanda, olhava os trabalhos a decorrer
nas terras abaixo da Colónia e até ao Linhó, pela esquerda e, à direita, até
aos “barros” — sessenta, contados em anos de tempo para a frente, os
“inteligentes”, chamar-lhe-ão: Norte da Abrunheira-Norte — mesmo à beirinha da
estrada, do lado de cá da “chancuda” que, para além da nascente, ainda recebia muita
água da regueira, desde o “penedo”, rentinha ao fundo do “Casal-Novo”. Tão
absorvido estava que nem respondeu à saudação dos dois passantes. Aproveitando
bem o tempo solarengo, em conluio com o São Martinho, o “Silvestre-Velho” mobilizava
as suas duas juntas-de-bois e todo o pessoal disponível, acelerando o amanho
para que, antes do Natal, grande parte das sementes estivessem na terra. Da
varanda, e como se todos o ouvissem e vissem, bracejava e gritava os
impropérios do costume — Ah, “almas do diabo”; “raios-os-partam”; “filhos duma
égua”; etc., etc.,.
Caminhavam
pela “principal”, com o amigo Rio-das-Sesmarias à esquerda, correndo no sentido
inverso ao deles; de norte para sul. Podiam ter metido pela “Azinhaga do Rio”,
à esquerda, a seguir ao quintal do Rafael Coxo e junto à escolha da fruta do “Pechincha”,
mas não o fizeram. Sob o olhar e cumprimento do Ti Mendes, que muito fumo pelas
beiças e ventas deitava, por cada forte puxada no bocal do cachimbo de cana
feito, rumaram na direção do Chafariz e o destino era a taberna da “Menina
Emília”. O Coutinho que era Bernardino estava com ganas de emborcar uma “charrete”
e, o “Artista-Sapateiro”, também.
Ambos sabiam
que “o norte” era o caminho daquele dia e daquele tempo. Por aquela que, vinte,
mais tarde, contados em anos, seria a “Travessa do Norte”, e a desembocar na
“Rua das Sesmarias” filha adotiva do nosso RIO que, pelo menos, lá pelos tempos
de D. Fernando “o primeiro”; se passou a chamar, aqui, na Abrunheira; “Rio-das-Sesmarias”.
Que não se contem os anos, desde o princípio do último quartel do século XIV, que
são muitos e tempo suficiente para que, para lá da profecia; “a dois mil chegarás,
de dois mil não passarás”, não se admita tamanha ofensa ao nosso RIO;
chamar-lhe “Caparide” e, ainda-por-cima, “ribeira”??!!
Vagarosos,
como se queria naquele verão emprestado de novembro, lá foram, com a “charrete”
da Menina Emília e mais — porque assim que meteram ao “Cipriano”, viraram no
beco para a adega do Pena — duas ou três canecas da melhor água-pé deste
planeta e de todos os outros que o universo tenha, em direção à passagem de
pé-posto, do nosso querido Rio-das-Sesmarias. Ele estava no seu sítio, corria
bem direitinho, de norte para sul e sem solavancos, que o chovido não era assim
tanto mas, muito acabrunhado.
Chegou
primeiro o Coutinho, pois a perna aleijada do “Artista-Sapateiro” — e mais o
que lhe passou pela goela, a caminho dum estômago bem atestado de acidez e
ávido de matéria para desfazer, e mandar rapidamente para o “delgado”, ganhando
velocidade no trânsito, mesmo sem mesinhas e outras artimanhas, para que não
estacione muito tempo no “grosso” — fizeram com que viesse mais atrás.
— Então,
amigo Rio-das-Sesmarias? Como vais correndo?
— Vou levando
a minha água, dando passagem de ida e volta, com direito a recreio, às enguias
do poço da nora, na horta e pomar dos pêssegos-rosa que o “Zé Silvestre”, trás.
Levo água para que os “girinos” nasçam, cresçam e, lá para março, despontem
lindas e coloridas rãs, que coaxam sem parar; para que os animais dos
Abrunhenses se satisfaçam do líquido precioso; para que os agriões que crescem
nas minhas margens, completem saborosas saladas verdes, enfim; da encosta de
Ouressa, engrossando com o “fio” nascido no Penedo, irmanado com a da Chancuda,
que pelos “Barros” vêm a mim: “Rio-das-Sesmarias”, antes e depois da Abrunheira
até à “Azenha” do Ti Sebastião, na Capa-Rota. Depois, já não me importo, porque
pelos “Bernardos” vou tomando outros nomes que, de mim, só a água levam. E
vocês? Como vão encarando as notícias que, do norte, nos trazem?
Cada pé em
sua pedra, com a anuência do “acabrunhado” RIO, passaram, como sempre faziam,
para o lado da pedreira que, do Ti Miguel, ainda seria, por muito tempo contado
em anos. O Bernardino, que Coutinho não era, tomou como assento a, que dizia
sua; pedra. Pegou no bornal, que se quedava no ombro esquerdo, e posou-o no
chão, com muito cuidado. Num dos alforges, trazia ferramentas de trabalhar a
pedra, como se fossem tubos de ensaio do mais moderno laboratório. A
“Ciência-da-Pedra”, que era a sua, só podia ser “manobrada” pelos mais
delicados instrumentos. No segundo alforge, que balançava à frente, o Coutinho
que era Bernardino, trazia o seu farnel que a Ti Mariana Soleta lhe tinha
preparado antes de sair de casa, ao mesmo tempo que lhe recomendava — Ai
“Be’nardine filhe, nã me vás pa’taberne embo’car vinhe” (aqui não entra a
”história” do Coutinho, por razões óbvias. Se, para quem lê, não for assim tão
óbvio, espere por outro escrito ou vá ver os antigos) e que tinha; Uma “cigana”
cheínha, um quarto de pão-escuro e um bom naco de toucinho-entremeado que, logo
chegado à pedreira, lhes daria o devido tratamento que, mesmo correndo o risco
do “Artista” me acusar de desvio do tema ou matéria, como lá muito para a
frente, no longínquo século XXI (se, a dois mil passarem) os políticos velhos e
os aprendizes, vão gostar de dizer muitas vezes; não resisto a “mostrar”, por
antecipação, aquele que, sempre era, um laudo banquete!
Na principal bancada do seu
“laboratório”; a pedra que servia de mesa para comer e poiso para as
ferramentas, Bernardino que não era Coutinho, tira do bornal o papel-pardo do
costume, estende-o na “mesa”, e coloca-lhe em cima; o pão-escuro, o naco de
toucinho e a “ciganita”. Como comer e beber, ritual sempre foi e será, respeitando
o cerimonial, saca do bolso a sua indispensável navalha-curva (de enxertar),
com jeito e delicadeza que só mãos e dedos habituados a “tocarem” a ciência,
mesmo que, de pedra seja, abre-a e, com um gesto certeiro de tantas vezes
repetido, passa os dois lados da lâmina da navalha, pela ganga das calças da
perna direita, logo acima do joelho, e inicia o corte preciso dum bocado de
pão. Findo este, idêntico manuseamento faz ao toucinho e, juntando os dois
pedaços, mete-os na boca, iniciando uma função de mastigação que, só viria a
ser completa, com um trago de vinho emborcado diretamente da “cigana”.
Noutra, bem
ao feitio e tamanho da “padaria” do Artista-Sapateiro, lá se sentou ele,
segurando, num repente, a beata presa ao beiço de baixo, que lhe ia caindo. O
único dente que despontava da “cavidade” bocal, bem espetado na gengiva de
baixo, não era suficiente para lhe prender, bem, o cigarrito. E, como que
reagindo ao tropeço, meteu “estopa” e iniciou faladura sapiente sobre viagens
há muito empreendidas; Não fosse, ele, Artista-Sapateiro, dos bons, contador de
histórias e cenas que ele sabia e repetia. Muito ele calcorreou, perseguindo
clientela de meias-solas para patrões das quintas e jornaleiros, desde a(s)
Malveira(s) (dos bois e da Serra) até aos “Estoris”, passando pelas Azenhas e
Janas, subindo para Almoçageme, Penedo, Eugaria até ao outro lado em
Paço-de-Arcos, Quinta da Estribeira, Leião até Belas, pelo outro lado em
Odrinhas, São-João-das-Lampas, Linhó ou Parede, Caparide, Murtal, etc., etc.. O
Artista-Sapateiro conhece o percurso do nosso Rio-das-Sesmarias, até à foz, na
Costa-do-Sol entre São João e São Pedro do Estoril. Por acaso até passa junto a
Caparide, a mais-ou-menos três quilómetros da foz e quinze da Abrunheira mas,
chamarem ao nosso amigo Rio-das-Sesmarias, “ribeira de Caparide”, não lembra a
ninguém que saiba um pouquinho de “geografia”.
— Oh
Coutinho, tive agora uma ideia de “estalo”; vamos teletransportar lá para a
frente, cinquenta ou sessenta de tempo contado em anos, uma “Petição pública”
para reposição da verdade e recuperar os nossos valores históricos, exigindo
que, no âmbito dos estudos e planos “nortenhos” para a Abrunheira, se chamem as
coisas pelos nomes, como é o caso do Rio-das-Sesmarias.
— Oh
Artista-Sapateiro, essa de “teletransportar” não é no gozo comigo, não?
— Não! Estou
mesmo a falar a sério, Coutinho! Não tem nada a ver com a tua tentativa de
travessia do Oceano Atlântico até ao Brasil com o Sacadura que era Borrego.
E o
Rio-das-Sesmarias lá corre com toda a lisura, mas acabrunhado.
Só quer a
verdade!
Silvestre
Félix
4 de
Dezembro de 2014
terça-feira, 19 de agosto de 2014
MALDITA CORVINA!
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Jardim do Bairro da Colónia - Silvestre - 1973 |
Em tempo
passado, corrido e contado em anos, irão, pelo menos, uns quarenta e um. É
verdade, ainda vivíamos no regime do “botas”
que já não era, embora, na fase final duma “primavera”
que nunca chegou a ser. Mil novecentos e setenta e três, derradeiros anos do
terceiro quartel do já longínquo século vinte. No ano anterior – setenta e dois – tinham acontecido os Olímpicos de Munique e, por isso, por
esses caminhos acima até ao “novo” Bairro da Colónia, levei o meu rádio,
gravador e leitor de cassetes pirata e sem serem, dentro do saquinho branco com
o símbolo olímpico e escrito “Munique “72”.
Quem vai por
esses caminhos acima também vem por esses caminhos abaixo. Realmente vim, mas
depois de muita “praga” ter atirado à
corvina. Sim, corvina! Aquele peixe muito bom que, nos últimos tempos, anda
fugido das nossas peixarias. Em setenta e três do século passado – ano do III Congresso da Oposição Democrática
em Aveiro que a PIDE-DGS desavergonhadamente invadiu – penso que por volta
de Abril, o Caravaca-Pai – Guarda prisional dos antigos – desafiou alguns
amigos do Caravaca-filho para se fazer
a “folha” a uma cabeçorra de corvina
cozida. E então lá fui por aí acima com os do costume, estrear a casa nova do Caravaca que, até aí, morava, como
muitos outros guardas prisionais da Colónia,
na Abrunheira, junto ao Chico Cobeca,
no início da Travessa do Norte.
“Maldita corvina!” Então, não é que, com
o que lhe juntei de bebida, talvez vinho branco ou verde-branco fresco, armou
um sarilho alcoólico-intestinal que me ia desfazendo todo em vómito e diarreia
como nunca antes nem depois experimentara. “Maldita
corvina” foi o que mais repeti cambaleando no bonito jardim e boca d’água
do “Novo bairro da Colónia” de mil
novecentos e setenta e três quando, ainda, a dois passos do Chiado, a PIDE-DGS torturava o operário, a doméstica ou o intelectual, só
porque a linha de pensamento divergia e eu, duma “janela dum terceiro andar” que, com o Tejo como espelho, conseguia
ver todo o mundo pelo lado dos dezoito anos que nunca mais voltaram.
Desde essa
época, em anos o tempo conta quarenta e um e, pelo menos, durante metade,
quando pelos caminhos acima ou abaixo, vamos ou vimos pela Colónia – sempre com muito cuidado como a minha
querida Mãe dizia quando, em tempo contado para trás em anos seriam dez, onze
ou doze e me deixava conduzir pela burra Carocha, pela ternurenta vaca Bonita, pela
Marcina, pela Estrela e por outras que os nomes voltavam por passarem de mães
leiteiras e parideiras para vitelas filhas e criadas com tanto amor pela Ti
Augusta, que muita tristeza se abatia lá por casa quando o destino se cumpria e
o Fachadas ou outro qualquer comprador se abeirava e carregava o animal – revolve-me
o estomago mas não por causa da “corvina”
nem do branco maduro ou verde fresco. O “Bairro
da Colónia” está velho e abandonado de manutenção e arranjos básicos. As
velhas moradias, por exemplo a do “guarda”
Vicente, há muito que “desistiram” e telhados ou paredes se
deixaram cair, os prédios – como o do
Caravaca – de mil novecentos e setenta e dois e setenta e três, vão pelo
mesmo caminho se não lhe puserem “a mão”
rapidamente.
O antes “novo” e agora “velho” Bairro da Colónia,
está como este País, a cair aos bocados no meio duma revolta estomacal só que,
agora, a culpa não é da “maldita corvina”,
mas sim, da
“Maldita corja!”
Silvestre Félix
terça-feira, 22 de julho de 2014
CALCORREANDO
Também de
relvinha fofa calcorreava, com o Zé Fernando, Zé Augusto, Rui, Fernando
Pedroso, Filomeno e, se calhar, com mais outros que a minha memória
negligenciou no ficheiro do tempo, aquela que era azinhaga desde a esquina da
casa da fruta do “Pechincha”, junto ao Rio das Sesmarias, até ao passadouro
para o lado da pedreira do Ti Miguel. Onde agora, na segunda década deste
desgraçado século XXI, existe uma ponte, O
das Sesmarias autorizava que o atravessássemos colocando os andantes nas
pedras altas que, uma-a-uma, nos levada à outra margem. Muitas vezes, pela
relvinha, calcorreávamos com os nossos “carrinhos-de-arame”, para desembocar,
não no Rio, mas subindo à direita até à oficina (dos carrinhos-de-arame) do Zé
Fernando. Aí, reparávamos todas as avarias endireitando as rodas e reforçando
as ligações ao eixo de direção que era uma cana bem comprida que levava o volante
até à altura do condutor. Também na oficina preparávamos os atrelados que,
quase sempre, derivavam de “dignas” e, antes, nutritivas latas de conservas
nacionais. Naquela época, já de arreliados dias bélicos pelas colónias e onde,
irmãos ou primos mais velhos, por obrigação, guerreavam a mando do salazarento
regime, as conservas eram sempre nacionais. Não carecia de verificarmos a
origem do atum, da sardinha ou das enchovas. Não corríamos o risco de
utilizarmos atrelados que tivessem vindo dos “nuestros hermanos”, como agora,
neste desgraçado século XXI que já vai na segunda década e onde, cada vez mais,
sinto inglórias as grandes batalhas nos céus da Europa em guerra,
protagonizadas (do lado dos que aprendi a serem os bons nos muitos
“quadradinhos” que devorei) pelo Major Alvega.
Muito
andávamos a pé e, alguns de nós, “dos putos”, literalmente. Nem todos tinham o
“privilégio” de poder usar, nos pés; botas, sapatos ou, simplesmente, chinelos.
Calçados ou descalços lá calcorreávamos os caminhos da Abrunheira, juntos ou
sozinhos, com a maior das naturalidades. Os calçados, para trabalho dos
sapateiros que, cá na Terra, eram verdadeiros artistas. Não contando com outros
também famosos que já não eram, que deles se dizia e eu ouvia «tivessem a alma
em descanso» como o “Sapateiro de Manique” porque era de Manique, claro está!
Muitos contos (de histórias, não de dinheiro) me narraram deste sapateiro que
por companhia tinha o “Cabeço de Manique” e que, para além de amanhar botas e
outro calçado, também tinha rebanho de ovelhas que lhe completava o rendimento
no leite, lã e na feitura de eiras para debulha de cereais durante o verão. Por
isso mesmo, o Silvestre Velho não prescindia da sua vinda. “Velho” no meu avô
não era nome, era da idade e dos cabelos e bigode brancos. Os filhos homens que
com ele andavam na lida do campo e os que por outras bandas se governavam, eram
conhecidos pelo nome próprio mais o do pai que, assim, funcionava como alcunha,
sendo que, quando se referiam ao verdadeiro Silvestre, acrescentavam o “Velho”
para não se confundir com os filhos.
Ainda na
onda dos sapateiros, outros havia que a alcunha não tinha nada a ver com o nome
do pai ou avô, como o Ti J’aquim (Cagachuva), mas decerto com outras
circunstâncias nada simpáticas para o simples olfato de qualquer abrunhense.
Bom artista de calçado e muito bom contador de histórias. Sempre as ouvia com
gosto mesmo sendo uma segunda, terceira ou décima vez contada. É assim como
aqueles filmes que vemos vezes sem conta, e sempre gostamos como se, de
primeira, sempre seja. Outro artista sapateiro havia, que se foi deste mundo há
bem pouco tempo já neste desgraçado século vinte e um. O Zé Celorico, como a
minha Mãe lhe chamava porque veio de Celorico da Beira. Com o Ti Zé partilhei
labuta – a minha primeira na condição de assalariado. Na Atil, que já não é, eu
e muitos rapazes da minha idade, na dita, com catorze de tempo contado em anos
– um puto, aprendíamos a disciplina e as agruras do operariado. Não é do meu “ser”,
nem teria razões para me queixar. Era bem tratado e por lá, na secção de
pintura, o Ti Zé Celorico pintava tudo o que de embelezamento precisava.
A adesão à
classe trabalhadora naquela altura foi por vontade própria, porque, acreditava,
a alternativa estudantina, para mim, era bem mais dura. A Ti Augusta fez tudo o
que lhe estava ao alcance para me convencer do contrário, mesmo sofrendo todos
os dias com o meu começo de jornada desde a Abrunheira até ao Cacém…
“Escuro, mas muito escuro e a chuva
caía às dez para as seis da manhã como já caía às dez da noite de ontem.
— Não filho, assim não! Descalça lá
os botins primeiro! Isso! Põe o pé aqui no banco. A Mãe vai enrolar o jornal
nas tuas pernas para não ficares com frio. Já podes calçar este botim. Agora a outra
perna, põe aqui o pé! Isso! Assim ficas mais quentinho!
— Oh Mãe! Deixo ficar assim, todo o
dia?
— Sim! Não tires antes de chegares a
casa!
— Com a saca bem presa à cintura, não
molhas as pernas! Segura bem o chapéu-de- chuva junto à cabeça. Quando vires a
camioneta a chegar, desatas o cordel e deitas a saca fora!
— Tá bem Mãe, até logo!
— Tem cuidado, vai sempre p’la
beirinha e olha bem quando atravessares para os “plásticos”. Dá cá um beijinho!
A chuva caía sempre! Gostava mais de
ir pelos eucaliptos até à Charneca, embora mais longe e descampado, porque pela
quinta “Lavi” até aos “plásticos” era muito escuro e no pinhal parecia que
estava sempre lá alguém escondido…tinha medo! Os botins pesavam e chapinhavam
na água acumulada. A camioneta do “Eduardo Jorge”, muito amarelinha, passava às
seis e vinte da manhã. Quando entrava às oito no Cacém, não tinha outra
hipótese. E os botins frios e pesados. E a professora de Matemática… que raio
de lembrança. Corredores, escola velha, escola nova, oficinas, recreio e sandes
de mortadela no Ti Rodrigues com sobremesa de cigarrito a dois, cinco tostões.
O fulano da “Mocidade Portuguesa”, o “chefe de castelo” ou lá o que era, não
nos largava. Insistia comigo e com outros para não faltarmos no sábado. Desde
que o tipo me obrigou a marchar sozinho, nunca mais lá pus os pés. Andavam
sempre a dizer que contava para a “nota” mas era mentira.”
Calcorreando
uma vida inteira por esses caminhos. Chegados ao largo, que pode ter “Chafariz”
ou não, que deveria ter todas as saídas embelezadas e de piso direitinho sem
pretextos para tropeções, deparamo-nos com um muro fechado a toda a volta e, na
maior parte das vezes, a azinhaga donde viemos também se fecha atrás.
É urgente
encontrar uma brecha no muro para continuarmos o “calcorreamento”. Tem de haver
uma falha!
— O que achas oh Bernardino que não
és Coutinho? Consegues guiar-me para esburacar a parede? (pergunta de
picareta – ferramenta da caixa do Coutinho que era Bernardino)
— Acho que sim! (diz o
Coutinho que era Bernardino). Com a minha força delegada em
competência, pelo povo da nossa “Terra”, e com toda a “ciência da pedra”, arte
minha aperfeiçoada em muito tempo de anos contado, e com a tua rijeza de bom
ferro fundido em forja bem quentinha, vou conseguir enfiar-te pelo muro dentro
e encontrar uma saída, mesmo que seja muito estreita!
Silvestre Félix
(Factos e outros não, ficcionados
na minha onda incluindo alguns nomes reais e outros inventados.)
22 de Julho de 2014
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