Mostrar mensagens com a etiqueta GITU. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta GITU. Mostrar todas as mensagens

domingo, 14 de outubro de 2018

BAILES, AJUDA DO SARAIVA DA SERRAÇÃO, RECENSEAMENTO E CONSTITUINTES


Por entre; serras e outras ferramentas elétricas, grandes tábuas em madeira bruta ao alto, outras tábuas já cortadas, mais ripas e ripinhas e muita serradura pelo chão, nós dançamos, dançamos até estarmos cansados.

O Saraiva da serração, por mais duma vez, deu-nos essa “abébia”. Não era para todos, só ele. Naquela época, era especial e gostava de colaborar com a juventude. Muitas vezes recorremos à sua boa vontade e generosidade.

Pelo menos, por duas vezes, disponibilizou o espaço de trabalho da serração, para fazermos lá baile. Imagine-se à sexta feira; ele e os empregados a arrumarem tudo para, no sábado seguinte, chegar a malta nova e montar o bailarico. Os Zés encarregavam-se da “playlist” em grandes discos de vinil e depois, cada um à sua vez, para poderem dançar todos, “empapelavam-se” de DJ’s.

Todos os jovens disponíveis da Abrunheira e não só — lembro-me de um ou outro rapaz e duas ou três raparigas, de fora. Os nomes é que… ficaram no tempo — estavam lá e os bailes foram um sucesso. Se tivesse havido oportunidade para isso, o Ti Saraiva tinha sido levado em ombros e saudado pelos jovens e adultos abrunhenses ou abrunheirenses.

Por outras duas vezes, ou mais, disponibilizou-nos uma outra dependência com entrada pela que viria a ser, Rua Ferreira de Castro e onde, mais tarde, salvo-erro, serviu para “abancar” o primeiro recenseamento provisório depois do 25 de abril de 1974 e, depois, para “Assembleia Eleitoral” das primeiras eleições livres, as constituintes, no dia 25 de abril de 1975. Mas, dizia eu, que por algumas vezes nos emprestou esse espaço para fazermos pequenos espetáculos de teatro que, na prática, foi o “embrião” do que, algum tempo depois, já na URCA, viria a ser o GITU. Os jovens da Abrunheira, neste tempo, foram, culturalmente, muito ativos na Abrunheira e fora.

Não foi só, mas foi grande a contribuição do Saraiva da serração para que os abrunhenses dessa época — entre 1972 e 1976 — tivessem um envolvimento e empenhamento cultural, como nunca tinha acontecido antes, nem, com a mesma intensidade, depois.

O intervalo dos anos que mencionei (4 anos) foram, do ponto de vista cultural e político, na Abrunheira, ricos e, ao mesmo tempo, explosivos. Até abril de 1974, a necessidade de descobrir, aprender e, por consequência, de contestar, numa movimentação que tinha que ter em conta o regime de ditadura existente.

Quarenta e quatro anos depois, em que a liberdade de expressão e de associação, é tão natural como o ar que se respira, não é fácil perceber as circunstâncias em nos movíamos.

Qualquer manifestação que pusesse em causa o estabelecido pelo regime, mesmo culturalmente falando, era proibida se detetada com antecedência, ou reprimida se só descoberta na hora, com intervenção da polícia política do regime, a PIDE que, por mais pequena que fosse a suspeita, poderia transformar-se em dias de detenção com interrogatórios sucessivos e, numa grande parte das vezes, levado a sessões de tortura. Principalmente se estava em causa a “tropa” ou a Guerra Colonial que, na altura, simplesmente se ignorava o termo “guerra” e, muito menos, “colonial”.

A este propósito, lembro-me, por exemplo, de ter comprado uma coleção de livros filosóficos sobre a “história das ideologias”. O vendedor, a quem, quando tinha orçamento, ia comprando um ou outro livro, avisou-me que aqueles, os das ideologias, eram clandestinos, ou seja; em tempos tinham sido recolhidos pela PIDE, portanto, se andasse com eles publicamente, devia forrá-los, de forma a não se ver o que era. Noutras ocasiões, o livreiro Olímpio, tornou a dar-me o mesmo recado.

Até abril de 1974, os rapazes da Abrunheira, como eu, debatiam-se com a certeza de ida para uma guerra que não queriam, fosse em África ou noutro sítio qualquer e, disso, conversavam às escondidas na maior parte das vezes, durante a noite, para que os riscos de sermos vistos por algum “bufo”, fossem menores.

O 25 de abril chegou nesta fase da nossa vida (eu tinha 19 anos) e, para além de tudo o que já se disse e passou à história, mal ou bem contada, para mim e para outros rapazes da Abrunheira, foi um alívio; já não éramos obrigados a ir para guerra nenhuma!  

O nosso trabalho cultural continuou graças à ajuda de muita gente. Neste escrito, apeteceu-me lembrar a generosidade do Saraiva da Serração naqueles anos da minha juventude.

Gosto de pensar que, independentemente da evolução natural da comunidade abrunhense ou abrunheirense, homens e mulheres com nome, deixaram o seu selo no que somos hoje, mesmo que alguns, ou algumas instituições, achem que só eles sabem o que o povo precisa e quer.

Silvestre Brandão Félix
14 outubro de 2018
Gravura: Google

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

URCA – E A SUA MATRIZ CULTURAL

Depois daquele período inicial da URCA, inigualável na forma e no contudo, com entusiasmo desmedido e vontade de querer fazer sempre mais, entendendo ser a forma de se recuperar o tempo perdido, houve duas fases muito marcantes na vida da coletividade e da Abrunheira: A apresentação da obra de Miguel Barbosa “O Palheiro” pelo GITU, com direção, encenação, cenografia e tudo o mais necessário de Gil Matias, estreado em 1979, e o encontro de Grupos Corais Alentejanos, salvo erro, em 1983, organizado pelo Grupo Coral Alentejano da URCA.

Para entender alguns acontecimentos é necessário contextualizá-los. Nos finais da década de 70 e princípios da de 80, cerca de 60% da população da Abrunheira era de origem alentejana. As razões sociológicas desta movimentação de famílias inteiras do interior para o litoral são do conhecimento geral, a que não é alheia a procura de melhores condições de vida com a industrialização da nossa região. Para laborar nas fábricas que iam aqui nascendo como cogumelos, era necessária mão-de-obra e, com a vinda dos primeiros no início da década de sessenta, logo outros foram chamados até que a Abrunheira mudou, até na maneira de falar. Dizia-se, na altura, que a Vila alentejana do Alvito se tinha transferido para a Abrunheira. Naturalmente que, dizendo isso se pecava pelo exagero, hoje, no início da segunda década do século XXI, há alturas do ano em que a Abrunheira se transfere para Alvito. Ou seja, estas duas Terras enriqueceram-se mutuamente.

Voltando ao Encontro de Grupos Corais Alentejanos de 1983, eu na altura não estava em Portugal e por isso não assisti a este, só aos posteriores, mas pelos relatos que li e ouvi e pelas fotos, foi, pela quantidade e qualidade de Grupos presentes, um acontecimento impar na história cultural da nossa Terra.

O êxito da apresentação de “O Palheiro” foi, acima de tudo, uma aposta arrojada do Gil Matias. A experiência dos componentes do GITU era “autodidata” e, mesmo assim, havia necessidade de recrutar muitos mais elementos. Cada reunião, cada ensaio, eram autênticas lições sobre a arte de representar. Gil Matias foi encenador, diretor, professor, Pai, irmão e sei lá mais o quê. Mais de metade do ano de 1978 foi necessário para dar corpo ao espectáculo. A peça é grande e a criação das personagens muito trabalhosa. Não foram poucas as vezes que tudo esteve quase a parar mas, com a nossa vontade e com a coragem e sabedoria do Gil Matias, lá conseguimos chegar ao dia do ensaio geral. Os nervos eram muitos na estreia. Sentados na plateia, estavam “olheiros” importantes e a população da Abrunheira em peso.

Fomos selecionados e concorremos ao Festival de Teatro Amador do Concelho de Sintra em 1979 e ficamos nos primeiros lugares. Lembro-me de termos representado a peça, para além das duas vezes na URCA, em várias locais dos Concelhos de Sintra, Cascais, Oeiras e Mafra. Esteve em cena todo o ano de 1979 e parte de 1980 e foi o grande sucesso do GITU. Era a consagração da motivação cultural da nossa coletividade e da nossa Terra. O Gil Matias continuou a colaborar com a URCA durante mais algum tempo, dando lugar depois a outras pessoas.

Miguel Barbosa, que recentemente doou ao Museu de História Natural de Sintra o seu espólio arqueológico recolhido ao longo de mais de quarenta anos de que fazem parte peças e fósseis únicos no mundo, é autor de uma vasta obra literária nas várias especialidades, a saber: Mais de trinta títulos de poesia editados em português, Italiano, Francês e Inglês; cinco novelas em Portugal e nos Estados Unidos; oito contos em português; mais de uma dezena de romances policiais com o pseudómino de Rusty Brown e três romances com o pseudómino de J. Penha Brava e participação em mais de cinquenta revistas literárias em Portugal, Brasil, Estados Unidos, França, Itália, Inglaterra, etc., etc.. A sua biografia preenche muitas páginas com referências a todos os cantos do mundo e, bem lá no meio, referindo-se à peça “O Palheiro” e aos grupos que a representaram: «“O Palheiro” foi representado pelos… (vários grupos) e pelo GRUPO DE INTERVENÇÃO TEATRAL DA URCA (ABRUNHEIRA), SINTRA».

Também esta circunstância é motivo do nosso orgulho!

Silvestre Félix