domingo, 6 de março de 2011

UM CORRIDINHO?

E o Ti Faneca toca, toca… e o pé bate, bate… e o cigarro no canto da boca, arde, arde… e os pares dançam, dançam, dançam…. até que, o Rafael Coxo, faz sinal ao Ti Faneca, a concertina pára.… o Rafael Coxo sobe ao palanque, e diz, aplicando toda a sua sapiência: "Alto e para o baile! Os Cavalheiros fazem favor de levarem as Damas ao bufete!". E o Ti Faneca volta a por a concertina a jeito e lá começa a tocar, a tocar… e o pé a bater, a bater… e tudo volta ao mesmo, só os Cavalheiros é que não acharam graça à “lembradura” do Rafael Coxo. A maior parte nem consegue disfarçar. Alguns, se pudessem, largavam já a Dama e punham-se a mexer. Ele é Mestre nestas surpresas e, por isso, quem se quer agarrar à “febra” tem de saber, ou calcular, qual é a moda em que o Rafael Coxo manda as Damas ao bufete.

Para a maioria dos Cavalheiros, cinco tostões é dinheiro, e uma gasosa ou uma laranjada é o bastante para lhe levarem o que sobrou para o fim-de-semana, e nem sempre a Dama o merece. Mas regra é regra e não se pode ficar mal à frente do pessoal. O cigarro do Ti Faneca está a chegar ao fim, quase lhe queima os lábios que habituados já estão destas queimadelas, e é o tempo para a moda chegar ao fim. O cigarro é como se fosse uma ampulheta, mede o tempo da tocadela assim como o bater do pé mede o compasso da moda.


Os pares desfazem-se, os Cavalheiros regressam ao seu sítio do lado da porta e em frente ao balcão do bufete, por detrás dos dois bancos corridos que estão ali exactamente para marcar o terreno. As Damas vão para o assento ao lado da sua Mãe, ou de quem está encarregada de controlar com quem a Dama dança… sim, porque essa coisa de ir ao baile tem muito que se lhe diga. Os assentos das Damas e suas acompanhantes são os conhecidos bancos corridos de madeira, dispostos em volta do recinto de dança.

Os Cavalheiros que têm tostões de sobra bebem o seu copo, olham as Damas, ensaiam sinais conhecidos ou piscadelas de olho, e um mais afoito e a atirar para o marialva barato, grita: "Oh Ti Faneca toque uma devagarinho!", e o Ti Faneca, que destes pedidos está ele farto de ouvir, e também porque tinha tanto de malandreco como de cabelo em falta na cabeça, põe a mão em jeito de funil na orelha, e responde bem alto para o Cavalheiro atrevido: "O quê ?? um corridinho ?? É p’ra já!" E antes que o interlocutor consiga reagir, já se ouvem os primeiros acordes dum corridinho do Algarve, daqueles mesmo muito rápidos.

E o Ti Faneca com a sua concertina às costas, pedalando a sua bicicleta, corre, corre… estrada acima, corre, corre…estrada a baixo, Linhó, Albarraque, Manique de Cima e Manique de Baixo, Mem Martins, Casais de Mem Martins, Ranholas, Lourel, Várzea de Sintra, Ribeira de Sintra e… até onde o chamam para tocar uma moda devagarinho ou um corridinho do Algarve….

São ambos figuras relevantes da nossa Abrunheira. O Ti Faneca era um Artista e Bom Homem conhecido em todo o Concelho de Sintra, Mafra e Cascais e deve ter morrido nos finais da década de 60 princípio de 70.

O Ti Rafael meu tio, era o "animador de serviço". Grande entusiasta da vida associativa da nossa Terra. Era da sua responsabilidade a realização dos bailes, enterro do bacalhau no Carnaval, e tudo o que era diversão. Quando havia uma festa, um baile, lá estava o "Rafael Coxo". Morreu no princípio da década de 80. O «Coxo» do "Ti Rafael" era alcunha e usada com todo o carinho do mundo, porque felizmente o "Ti Rafael" não era deficiente motor.

(Extraído dos textos “Abrunheira, Terra com História” de Silvestre Brandão Félix, publicados no extinto blogue “Aldeia Viva” durante 2007 e 2008.)
(Correção e atualização do autor em 2011)

Silvestre Félix

2 comentários:

  1. Este texto podia ter sido sugerido por mim para um trabalho quen tive que fazer para a FCSH (faculdade de ciencias sociais e humanas) em 2008: "a musica no ambiente social saloio da decada de 1960"....Não o conhecia e está belissimo como sempre os teus escritos das tuas memorias de Sintra....
    Isto tem que dar livro....Vai pensando nisso...
    Eu penso....
    Abraço

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  2. Como deves calcular no tempo desses bailaricos ainda não morava na Abrunheira,mas essa figura carismática do tio Faneca não me era de todo desconhecida,pois como sabes também tive em casa um bom contador de histórias e curiosamente muitas delas eram passadas nos bailes desse tempo e entrava sempre o tio Faneca.Tenho saudade do meu sogro,achei graça focares o nome dele.Consegui visualizar o ambiente desses bailaricos,a discrição é fabulosa.Parabéns

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